quinta-feira, dezembro 27, 2007

O Maior País do Mundo

É verdade que, tendo em conta o título deste texto, me podem acusar de publicidade enganosa. No entanto, verão que tal tem a sua justificação. “Muitos parabéns! Acabou de ser a quinquagésima terceira pessoa a considerar o nosso país como o maior do mundo. Tal facto é digno de uma entrada directa no livro do Guinness”. Foram estas as palavras que me ecoaram no cérebro em meados do mês passado. Estava eu colado ao computador e com a televisão ligada, quando me deparo com mais uma notícia de qualidade e valor noticioso inegáveis – “Portugal tem o maior assador de castanhas do mundo”. Como não poderia deixar de ser, prosperou em mim um sentimento de patriotismo e orgulho que nunca antes havia sentido. O meu corpo sorriu e senti-me pertencente ao povo mais culto e inteligente do planeta. Afinal, construímos o “maior assador de castanhas do mundo que pesa, nada mais, nada menos, que 650 kg!!!”.

Mas o nosso peso na inteligência guinnessiana não fica por aqui. O mesmo povo que deu “novos mundos ao mundo”, que partiu em busca do desconhecido, que atravessou mares e oceanos, desertos e fronteiras, que lutou bravamente contra o Adamastor, que defendeu até à morte as cinco chagas de Cristo que trazia ao peito, volta hoje a ser um dos mais fortes e temidos países do mundo!

Súbditos, ajoelhem-se perante a nossa grandiosidade messiânica! Nós detemos em nosso poder a mesa mais comprida do mundo! É verdade, mais de 15 mil pessoas na Ponte Vasco da Gama, a maior da Europa, sentaram-se a uma mesa de 5.050 metros de comprimento para saborear uma magnífica feijoada – também ela a maior do mundo. Diz-se que nesse dia – 22 de Março de 1998 – apesar de a ponte estar fechada ao trânsito, foram atingidas elevadas velocidades e variados rebentamentos.

Como nós não gostamos de ficar atrás de ninguém, sete meses depois, nos dias 22, 23 e 24 de Outubro, uma indivíduo pôs mãos à obra e preparou a maior refeição do mundo sem ajuda! Que grande feito! Foram 50 horas e 30 minutos de preparação de um almoço para 1.081 pessoas. Sobrou uma dose, por isso é que aquele 1 surgiu ali no final.

Continuando na área que mais nos apraz, muito por culpa de génios da cozinha como o Chef Silva, Carlos Capote ou Filipa Vá Com Deus, de realçar que o nosso espólio conta com os maiores torresmos da Península Ibérica, o maior bolo-rei do mundo, o maior magusto do mundo e a maior sopa do mundo – um tradicional gaspacho alentejano preparado em Cercal do Alentejo. Para acompanhar, nada melhor que beber do maior copo de vinho do mundo. Também Viseu contribui para a nossa vitrina de recordes, tendo confeccionado o maior pão com chouriço do mundo, com 970 metros!

O tamanho do chouriço foi, neste caso, um factor de alegria para todos. No entanto, muitos não se controlam e o caso toma outros contornos. Que o diga um bode, detentor dos maiores chifres do mundo! São 1,09 metros de galhos na cabeça. Não deve ser fácil… Os outros animais emocionaram-se com a situação e convocaram manifestações, entre elas, uma largada de touros que durou 25 horas seguidas, em Samora Correia.

Como estes protestos de animais podem não parecer muito reais – mas que as há, há! e não são poucas – nada melhor do que proporcionar ao mais comum dos mortais uma viagem pelo mundo da magia. Foi isso que fez Luís de Matos, ensinando a 52 mil pessoas um método para fazer desaparecer 52.001 lenços, no dia 16 de Novembro de 2003 no Estádio do Dragão. Este honroso título tem o nome de “mais não-mágicos ensinados a fazer um truque num único local”. Que bonito! Parece uma frase do Saramago… O Estádio dos tripeiros, mais tarde, foi o local escolhido para atingir mais um estrondoso recorde e emocionante (perdoem-me as lágrimas) número de magia. Foi lançado o maior número de aviões de papel em simultâneo, no mesmo local.

Aproveitando a onda de fantasia, falemos do Benfica. Em 2006, o maior clube português foi considerado como o maior clube do mundo, após ter atingido o patamar de 160 mil sócios. Mas o desporto não se remete apenas ao futebol e, no hóquei, possuímos o jogador mais velho do mundo, com 71 anos, quase tantos quantos aqueles que separam o Benfica de um título.

Em 1999, Portugal uniu forças e construiu o maior logótipo humano do mundo (34.309 pessoas no dia 24 de Julho de 1999, no Estádio Nacional, para o logótipo da candidatura ao Euro 2004).

No entanto, quando falamos de desporto e recordes, não podemos omitir o nome de Gualdino Guerreiro. Duas vezes citado no “Guinness”, em 2002 e 2003, manteve uma bola de golfe suspensa num taco “sandwedge” durante uma hora, 19 minutos e 28 segundos em Pembrokeshire (Reino Unido) e em dois tacos, no mesmo local, durante 59 minutos e 58 segundos.

Que precisão entre bolas e tacos. Do mesmo se podem gabar os noivos que participaram na cerimónia que contou com o maior número de casamentos do mundo. As noivas, ou pelo menos uma delas, também se pode mostrar satisfeita visto que recebeu o maior bouquet de noiva do mundo. Eram rosas, senhor. O maior ramo de rosas com 518 flores, com 28,4 kg, obra de um florista português, pois claro! Resta saber quem entregou este ramo e a quem. Suspeita-se de alguém que tenha assistido ao maior desfile de biquini do mundo, na Figueira da Foz. Mais de 2.000 mulheres em biquini, no ano de 2004, é de colocar os olhos em bico.

Em bico ficou o maior canivete do mundo, obra portuguesa. Não se sabe se ajudou a construir a maior guitarra acústica do mundo ou a maior manta de retalhos do mundo, também obras genuinamente nacionais.

Contudo, podemos sempre guardar a maior colecção de souvenirs reais relacionados com a princesa Diana de Gales, propriedade de um português.

Também lá fora damos cartas. Que o diga José Melo, empresário que possui o mais alto monumento autóctone canadiano do mundo, o “Inukshuk”.

Por falar em estrangeiro e em aborígenes, não posso deixar de referir a ilha da Madeira, actualmente (e até que a morte os separe) governada por Alberto João Jardim. Foi lá, na passagem de ano de 2006 para 2007, que se realizou o maior espectáculo do mundo de fogo de artifício.

Em época natalícia, não podemos ficar para trás no que respeita a: (três opções) 1- ajuda aos mais desfavorecidos; 2- criação de boas condições de saúde; 3- bater recordes do Guinness. A resposta é… a terceira!!! Não só somos proprietários da maior árvore de Natal do mundo, como também temos em nosso poder (ah ah ah, sorriso maléfico!!!) a maior árvore artificial da Europa. Construímos um Pai Natal de 14 metros em Torres Vedras, levámos 14.100 pessoas a participar num desfile de Pais-Natal no Porto, e ainda enviámos 350 mil cartas para o Pai Natal na Lapónia!

Como a Lapónia fica tão longe quanto o nosso sublime passado, poucas hipóteses temos de receber alguma prenda. No entanto, e recordando alguns recordes históricos, podemos orgulhar-nos de fazermos parte do tratado mais antigo do mundo, o Tratado da Aliança Luso-Britânica, assinado em Londres a 16 de Junho de 1373 e ainda em vigor. D. Afonso Henriques é detentor do reinado mais longo da Europa e o príncipe da Coroa Luis Filipe (D. Luís II), dono do reinado mais curto, que durou apenas 20 minutos, em 1908.

Todos estes grandiosos feitos – e muitos outros que não consegui nomear – têm realçado, ao longo dos anos, as melhores qualidades do povo português. Bolos, castanhas, aviões de papel, árvores de Natal... Tudo isto dava um filme. Até podia ser realizado pelo Manoel de Oliveira, o realizador mais velho do mundo no activo, com 99 anos.

Gostaria de terminar este artigo de opinião com uma notícia de última hora! Preparem os confetti, segurem nas garrafas de Champanhe, rufem os tambores… Esta é “A Crónica Mais Longa Sobre Recordes Portugueses no Livro do Guinness”. Os meus sinceros parabéns a mim!

André Pereira

quarta-feira, julho 04, 2007

Acessibilidades...

Caminhava eu, dirigindo-me para casa, quando senti algo na cabeça. Não era um pensamento, um pressentimento, nem tão pouco uma caganita de pássaro ou uma maior de pára-quedista…

Não, era simplesmente um sinal de trânsito, colocado em cima do passeio.Com os meus modestos 1,82 centímetros de altura tive a sorte ou o azar de lá bater.Pergunto-me se vivemos num país para pessoas baixas ou se será um país baixo para pessoas altas…

Parei, olhei em redor, e perguntei-me se muitos já ali não teriam batido. Se fosse invisual dificilmente escaparia ao choque, se precisasse de cadeira de rodas, dificilmente conseguiria passar por aquele local pois o malvado do poste está mesmo no meio do passeio. Será que os peões já não podem caminhar no passeio?

Foi com esta dúvida que fui para casa, abri o pc, e comecei a escrever. Acessibilidade... Para quem não sabe, é a criação de algo que permite a pessoas com deficiências, fazer a mesma coisa. No caso da web, uma página acessível, é uma página que permite a qualquer pessoa aceder ao seu conteúdo, seja ele imagens, texto ou som. Como fazê-lo? Bem, colocando "tags" nas imagens a explicar o que mostra a imagem, colocando links com nomes claros e não "clique aqui" e afins.

Portugal vai ter agora em Setembro / Outubro, o primeiro curso superior de acessibilidade.

Algo que já era pedido há muitos anos. Afinal, quem não vê bem ou não tem capacidades motoras para aceder a algo, não deve ser excluído das novas tecnologias, nem de nada.

Felizmente, Portugal vai ser pioneiro, e poderá ser um exemplo para toda a Europa. Chegou em boa hora com a presidência portuguesa da União Europeia.

Foi a pensar em Acessibilidade para todos que criei um site para a Tuna Real Torga, do Instituto Superior Miguel Torga. A página tem links sucintos, é lida por um sintetizador de voz e tem atalhos de teclado para navegação no site. O site poderia ter animações em Flash e muitos outros, mas assim por motivos estéticos, muitos ficariam afastados do conteúdo...

Fico feliz por contribuir uma parte para que assim todos possam ter oportunidade de experimentar a web. Quem quiser visitar... Tuna Real Torga

Não quero que o sinal em que bati, seja na Web "um sinal" que impeça as pessoas de ver.

Quando se cria algo com a acessibilidade em mente, os resultados serão "visíveis para todos".

sábado, junho 30, 2007

Luso(n)fonia

Nasce na serra, desce os verdes montes enrugados, e entrega-se a quem a quiser beber. Comparada com uma qualquer água, a nossa língua tem um sabor antigo e simultaneamente fresco.

Nós, lusos, temos o nosso paladar espalhado por todo o mundo. Qualquer continente é familiar. Porém, por vezes, não nos conseguimos enquadrar correctamente naquele onde nos encontramos. Somos uns, outros, todos e nenhuns!

E é o centro deste continente que nos faz, em grande parte, alterar positiva e/ou negativamente o curso da nossa língua. Recolhemos expressões estrangeiras e inventamos outras. Faz parte da nossa evolução como seres falantes e pensantes. Muitos destes últimos é certo que não se encontram no nosso país, mas… whatever.

O futebol tem sido uma das bandeiras (de preferência verde e vermelha, com uma esfera armilar amarela) do nosso idioma. Mas a inteligência com que fazem uma finta ou marcam um golo é estrondosamente díspar daquela que possuem na língua. “Tou muito contente de tar aqui pah, espero que póssamos ganhar o jogo graças a Deus.”. A ignorância não se nota apenas na forma mas também, e, essencialmente, no conteúdo. Aliás, não se pode falar correctamente quando o nosso cérebro não sabe sequer o que é falar.

A música é outra das áreas onde a nossa fonia se desenvolve pelos quatro cantos do mundo. Temos Jorge Palma, Rui Veloso, José Afonso, Amália Rodrigues, Madredeus, Moonspell, entre muitos e muitos outros, que implantaram nas pautas musicais novas formas de se enraizarem na cultura portuguesa e/ou mundial. No entanto, também temos os nossos músicos (???) como o Tony Carreira (nome bem português, Tony, especialmente aquela letra que não se encontra no nosso alfabeto…), que utiliza de forma absolutamente brilhante todos os meios ao seu dispor para embelezar a língua portuguesa. Pena é conhecer poucas palavras, como “amor, dor, alegria, harmonia, paixão, coração, sofrimento, pensamento”. Tal como este cantor de coisas, também o seu filho eleva o nome do nosso país. Mickael, outro nome absolutamente português. É impressão minha, ou está ali outra letra inexistente no nosso alfabeto? Pode ser só impressão… “Tu estás em mim aonde eu estou” – esta é provavelmente a frase mais complexa da história da humanidade, pelo menos da minha. Se, por um lado, o artista diz que “tu estás em mim”, por outro, afirma que é “aonde eu estou”. Ora, aqui é que surge a complexidade deste verso da língua portuguesa. O senhor Mickael é, provavelmente, o homem mais rápido do planeta, não só na forma como passa ao lado da música, como também pela forma como está num sítio aonde vai. Uma pessoa pode estar onde quer que seja aonde a outra vai. Agora, estar num sítio aonde a outra pessoa está é que é mais complicado… E, neste caso, não se trata de um mero estrangeirismo ou evolução numa determinada palavra, mas sim num erro ao qual, infelizmente, estamos habituados. Mas não irei falar de todos os erros de português que existem na música, na publicidade, na televisão, no jornalismo, no futebol, etc, etc, etc. Se o fizesse, talvez necessitasse de mais palavras do que aquelas que o próprio dicionário comporta.

Hoje em dia, há uma liberalização musical ao nível das letras. Tanto se canta mal em português como em inglês. Aqui, “cantar” no sentido de “dizer”, “falar” e não no aspecto sonoro, musical…

Como Sam the Kid (outro nome tradicionalmente português, tal como Tony e Mickael) afirma numa das suas músicas, “há uma identidade, vocês são todos idênticos. São autênticos mendigos vendidos por cêntimos”. Talvez sim, talvez não. O músico pode cantar para vender, para comprar, para o que quiser. Mas que utilize o português correctamente, “ouvistes”?

Talvez sejamos todos uns “niggas” com vontade de emergir e construir uma nova língua. Mas ya, vamos pensar um pouco, bro. LOL Isto até chega a ter piada… Cool! Façamos tudo (sem acento tónico no primeiro “a”, por favor) para que a nossa língua evolua, obviamente, mas sem nunca se afastar do correcto, da verdadeira forma de escrever e falar.

É hora de utilizar todas as “guns n’ roses” para combater e embelezar as letras que se nos surgem. Talvez, assim, teremos uma verdadeira “luso n’ fonia”.

André Pereira
O Despertar

terça-feira, junho 26, 2007

Beyond Death


O que é a morte? É esse um dos grandes mistérios da humanidade e não raras vezes tentamos encontrar explicações (algumas mais ridículas que outras). Será a morte simplesmente a falência de órgãos vitais seja porque motivo for? Será a morte o último fechar de olhos? Será a morte a senhora vestida de preto com aquele engraçado instrumento a que todos chamamos de foice e que no fundo é uma alfanje? E depois da morte? E depois? O que há? Nada, ou será apenas a morte o início de uma melhor existência?

Bom, temos no nosso mundo milhares de milhões de escritos de gente iluminada que, uns com mais credibilidade que outros, claro, tentam responder a tais perguntas, contudo não consigo deixar de pensar que até agora nunca ninguém que tenha morrido e ressuscitado escreveu um livro sobre isso (alguns dizem que Jesus morreu e ressuscitou, outros dizem que não, mas ponto assente é que não escreveu livro algum sobre o assunto). Ora, se nunca se escreveu da morte por experiência própria como nos podemos basear em pessoas que dizem ou isto ou dizem aquilo? Como não me atribuo poderes de médium nem de adivinho não vou conjecturar sobre o que há depois da morte para o falecido, vou, isso sim, limitar-me aos factos que posso garantir que são verdadeiros, ou seja, o que acontece depois da morte aos que amam (amavam?) o falecido.

Se ao vernáculo necessitarmos mesmo de recorrer o que se pode dizer com certeza é que a morte é uma Puta (com P grande) que nos roubou e há-de continuar a roubar aqueles que amamos. A morte de familiares, de amigos, de amantes, todas elas nos atingem de diferentes maneiras mas todas têm algo em comum, a perda, a certeza (pelo menos a minha) que nunca mais na minha vida vou poder estar com aquele familiar, nunca mais na vida vou poder rir-me das piadas daquele amigo, nunca mais na minha vida vou poder beijar os lábios daquela amada. Claro que podemos sempre argumentar que quem perdeu mais foi o falecido (perdeu a vida), mas e nós que cá ficamos? E nós que ficamos privados das pessoas com quem queremos estar?? Não é revoltante? Não dói saber que nada podemos fazer? Não dói saber que não podemos recorrer a nenhum poder judicial para por cobro a uma tremenda injustiça? Porque raio não morre o Kim Jong Il ou o Ahmadinejad ou a Condoleezza e tem de morrer quem não merece?

Tantas perguntas que pergunto, e para quê? (mais uma) Ninguém vai responder aos meus porquês…

sábado, maio 26, 2007

Pequena Maddie


Olá pequena! Sinto a falta do teu sorriso, desse teu olhar cativante que agora não me deixa dormir. Noites escuras, sem vida, onde o silêncio abafa o meu triste choro. Vagueio por entre paredes, questionando-me, preso a sentimentos amargos, o porquê da tua partida, sem aviso, sem razão. Durante devaneios sem fim, agarro-me à boneca que te acompanhava entre baloiços e escorregas, entre brincadeiras e sonhos repletos de fantasia. Dou-lhe festas no cabelo, como só tu gostavas, meu amor. Solto mais lágrimas, lembro-me de todos os momentos em que te tinha nas mãos, em que sabia que estavas comigo.

Os dias passam e tu insistes em não aparecer. Não querem trazer a minha menina, esses homens de mente deturpada, pervertida por infâncias difíceis ou apenas por malícia. Eles que te tragam para os meus braços. Não quero justiça, não quero vingança, apenas quero ter a minha pequena Maddie.

Olho para um retrato teu, fecho os olhos e penso que estás comigo, abraçando-me com essas tuas pequeninas mãos. Dás-me força para continuar, sorris e de repente desapareces. Volto à crua e dura realidade que me despedaçou o coração.

Quero-te de volta. Quero-te encher de mil beijos, quero dizer a toda a gente que a minha menina regressou. Espero por esse dia até ao resto da minha vida. Até lá, os meus olhos perderão o brilho que a vida lhes deu, o meu coração baterá mais fraco, perdido no desespero de te ver. Sei que andas por aqui, sinto a tua presença, esse teu especial calor, poderás estar distante, talvez perto, mas sinto-te.

Por favor voa, meu anjo. Voa, voa...voa…

segunda-feira, maio 07, 2007

La Petite Mort

"O que o ouvido deseja é ouvir música, e a proibição de ouvir música chama-se negação do ouvido. O que os olhos desejam é ver beleza, e a proibição de ver beleza chama-se negação da vista. O que a narina deseja é cheirar perfume, e a proibição de cheirar perfume chama-se negação do olfacto. Do que a boca quer falar é do justo e do injusto, e a proibição de falar do justo e do injusto chama-se negação do entendimento. O que o corpo deseja gozar são alimentos ricos e roupas belas, e a proibição desse gozo chama-se negação das sensações do corpo. O que o espírito quer é ser livre, e a proibição dessa liberdade chama-se negação da natureza."

Yang Chu
Que nos faz levantar todos os dias?

Poucas certezas tenho na vida.
No entanto, sei que se ganhasse a lotaria, se comprasse a mais luxuosa das casas, a mais brilhante das jóias, a mais cara das companhias e o mais moderno dos jactos continuaria sem A encontrar.
Continuaria a ser miserável se antes o fosse, continuaria com a mesma vida sem brilho que antes teria, continuaria a sentir-me só. Poderia viajar da China ao Pólo Sul, e do Pólo Sul até aos confins da Terra, que por mais longe que o meu jacto particular me levasse, não me levaria até Ela.
Tudo o que o meu dinheiro conseguiria comprar seriam falsos sorrisos, carícias interesseiras e pequenos vazios que me dariam um prazer temporário. Essas pequenas mortes que, a pouco e pouco, nos fazem esmorecer. Essas pequenas mortes ilusórias que nos enchem o vazio dos dias...
Essas pequenas mortes...

Que nos faz levantar todos os dias?
Essas pequenas mortes... Essa nossa busca incansável e inalcançável pela Felicidade.

Poucas certezas tenho na vida.
Mas isto sei-o, com certeza.

* * *
"... o medo do prazer."

Gostamos tanto do prazer que temos medo que ele acabe. Assim como a felicidade. Há quem prefira evitá-la a vir um dia a experimentar o amargo sabor que é deixar de a sentir. Pois o prazer, tal como a felicidade, vem e vai. Nada dura para sempre, pois se assim fosse, dar-nos-ia sequer prazer?
Por outro lado, não será mais fácil negar e renegar tudo o que se associe ao prazer, caluniando-o, para não correr qualquer risco de lhe não resistir?
Hoje em dia, para onde quer que olhemos salta-nos o prazer à vista. Temos todos os tipos de prazeres. E se formos a ver bem, vivemos exactamente para isso, ou em função disso: ou porque os negamos com todas as forças do nosso ser, ou porque lhes cedemos com todas as fraquezas do nosso ser."

Somos criaturas estranhas.
Creio que o posso dizer com todas as certezas.
Será que assim o somos porque assim a vida nos fez ou, pelo contrário, fomos nós que, já sendo criaturas estranhas, também criámos uma vida estranha em nosso redor?
A verdade é que somos tão complexos que chegámos ao ponto de nem sequer nos conseguirmos definir.
Somos um turbilhão de confusão, de incompreensão, de indecisão, de indefinição.
Se me perguntarem se me sinto, neste momento, feliz, possivelmente direi que não.
Se me perguntarem o que me faria sentir feliz neste momento, direi com certeza, que não sei, pois é complicado e depende e... e ... simplesmente não sei.
Somos um turbilhão de insatisfação.
Mas sim, Einstein estava certo: é tudo muito relativo.
Se vir o telejornal lamentarei todas as desgraças do mundo. E o jantar cair-me-á como uma pedra no estomâgo. E eu lamentarei. E mudarei de canal, e sentir-me-ei feliz.
Relativamente feliz.
E assim vamos vivendo.
Nem sabemos bem como, mas vamos vivendo. E vamos tentando descobrir, ou simplesmente tentando esquecer.
Na verdade, creio que chegámos a um ponto em que se torna tão doloroso abrir os olhos que preferimos manter-nos cegos.
E aí surge um riso. Ou um carro novo. Ou uma simples rosa.
E esses momentos fecham-nos os olhos, e aconchegam-nos o coração.
"Talvez o amanha valha a pena. Vamos esperar para ver."

E acordamos, levantamo-nos. Pomos os pés no chão frio, esquecemos o ontem. É melhor.
Tomamos café com uma dose extra de açúcar para adoçar a vida e fingimos que não ficamos enjoados.
De manhã temos sempre aquela perspectiva de que tudo correrá melhor. Creio que é somente para que nos possamos aguentar até ao final do dia, em que nos descalçamos e sentimos o frio do chão novamente. Mas colocamos umas pantufas e passamos a caminhar sob um chão mais suave.

E depois chega a noite. E a noite arrasta consigo todos os fantasmas, e aquela perspectiva de um amanhã incerto. Mais uma vez esperamos para ver.
Que nos trará? Sorrisos, lágrimas, nada... ?
Esperaremos.

Qualquer coisa será melhor que a angústia que a noite traz e, de qualquer das formas, o relógio não pára. E lá estamos nós, condenados ao perverso jogo do tempo e da vida.
Eles passam por nós, quer queiramos quer não. E tudo o que nos resta é pedir-lhes uma boleiazinha e agarrarmo-nos com unhas e dentes.
É que tudo isto não deixa de ter a sua ponta de ironia: é que a vida é o que nós fazemos dela, mas nós também somos o que ela faz de nós. Curiosamente, a vida é nossa, mas temos que nos cingir às suas regras. Na verdade, tudo aquilo que controlamos é um nada abismal, em que nos limitamos a mover o nosso pequeno peão, que pula os cadáveres que vão caindo, e tenta alcançar o lado de lá do tabuleiro, à espera de resgatarmos não sabemos bem o quê.
Mas no final, tudo se resume a um check-mat. Uma jogada mais precipitada, menos deliberada e toda a nossa caminhada chega ao fim. Perdemos a boleia, recomeçamos de novo.

E lá vem um sorriso, um riso, uma carícia. Um chocolate, um amigo, uma desilusão.
E isso vai-nos aquecendo o coração e juntando os pedacinhos da nossa alma.
E continuamos a sentir-nos miseráveis, sem o sermos. E continuamos a desejar, sem sabermos bem o quê.
E continua a guerra, e continua o medo e o Sol a nascer.
E assim vamos vivendo.

Já nada nos causa espanto, porque as coisas sempre foram assim. E se não sempre assim o foram, preferimos pensar que sim, porque pensar demasiado nisso antecipa a noite. E a noite é assustadora.
Iniciamos mais uma batalha, erguemos espadas, cortamos corações, enterramos soldados, derrubamos barreiras, dilaceramos espíritos. Explodimos, conquistamos, derrotamos, somos derrotados.
Não desistimos. Isso não vem nas regras, e o acto cobarde de desistir requereria demasiada coragem para as quebrar.
Então mantemo-nos no mesmo de sempre.

E vamo-nos agarrando aos pequenos prazeres que a vida nos vai concedendo.
Pois a vida são esses pequenos momentos de glória, de paixão, de reconhecimento, de paz, de fulgor.
Uma trincadinha num chocolate, uma palavra doce, um aroma caloroso, o quentinho das nossas pantufas.
É isso que faz o mundo girar e apazigua a tempestade que é a vida.
Pois tudo o que procuramos, neste labirinto, é uma réstia de felicidade.
Algo que nos faça sentir vivos, ou que valha a pena assim nos mantermos.
Tudo o que nos move é essa nossa esperança de sentirmos, nem que por breves momentos, o sabor da felicidade. Acabamos por viver à procura de algo que não sabemos ao certo como sabe por nunca termos sentido esse sabor na sua íntegra, ou talvez até o tenhamos sentido e apenas não nos tenhamos apercebido disso na altura.

Queremos sempre mais e mais e mais.
E como custa encontrar essa felicidade na íntegra procuramos pequenos prazeres, prazeres imediatos, que não resolvem nem preenchem (se não temporariamente) esses vazios que nos atacam, mas que nos consolam.
E há quem viva apenas com esse propósito: satisfazer corpo e alma de todos esses prazeres imediatos, até não aguentar mais. E depois essa sensação passa, e fica o vazio. Um corpo oco e ressequido.
Na verdade é como andar a tentar manter a linha e decidir, de repente, saciar todos os desejos e fomes até não poder mais; e aí vem o abuso, o excesso; e resta o enjoo e o arrependimento. Mas o relógio não volta atrás...

Por outro lado, há também quem prefira negar todo o tipo de prazeres, talvez por os associar a acções pecaminosas, rejeitando-os por completo.
Voltando à nossa dieta: por vezes, quando tentamos manter a linha, para nos afastarmos de tudo aquilo que nos arruinaria o objectivo, simplesmente optamos por nos mentalizar que não gostamos de chocolates, não gostamos de bolos, não gostamos de... e se alguém nos pergunta se queremos uma trincadinha é mais fácil responder " Não, obrigada, não gosto muito." E pronto. Ao negar isso, não corremos o risco de cair em tentação. O nosso objectivo é alcançado, mas vivemos uma vida completamente insonsa.
No entanto, nada disso nos impede de pensar naquilo que à partida rejeitamos, nem tão pouco de o desejar. Mas por vezes o hábito de o negar já está tão entranhado que depois nos esquecemos de como se pode viver sem o fazer.

Depois surgem aqueles que, cumprindo a sua dieta, volta e meia se dão ao luxo de quebrar as regras e comer o que desejam. E isso não cria excessos, nem uma vida completamente vazia de prazeres. Cria um equilíbrio, e torna-se mais fácil viver.

É que as pessoas foram, a dada altura, tendendo para os extremos, talvez porque seja mais fácil ou ceder por completo, ou rejeitar tudo, sem pensar sequer. E tornamo-nos irracionais. Mas a arte de bem viver é complicada e fazê-lo sem um manual de instruções torna-se uma tarefa árdua.
Até porque vivemos numa sociedade que nos deixa, de certa forma, num engraçado paradoxo. Para onde quer que olhemos, numa rua, numa revista, na televisão, tudo o que nos oferecem são prazeres, que se apoderam das nossas fraquezas e alimentam o mundo.
E a dada altura são essas coisas que nos impingem que passam a comandar a nossa vida, porque é isso tudo o que nos oferecem: uma embalagem, sem grande conteúdo. Mas sentimos, por momentos, uma sensação agradável e, uma vez que não há dor, dizemos que nos sentimos felizes.
Mas o paradoxo reside aqui: apesar de ao caminharmos numa rua sermos fulminados por imensas formas de prazer, a sociedade sempre nos ensinou a reprimir tudo aquilo que nos dá algum gozo.


Todos sabemos que "o fruto proibido é o mais apetecido" e, talvez seja por isso que, sempre nos ensinaram dessa forma: para que possamos alimentar a sociedade comprando tudo aquilo que nos impinge, criaram uma barreira invisível à nossa volta, para que, a dada altura, ao espreitarmos por uma brecha, lá colocada propositadamente, desejemos passar para aquele outro mundo que, falsamente, nos tentavam esconder.
Na verdade, é como se todo este jogo já estivesse viciado desde o início. Sempre assim o foi, e continuará a ser entretanto.
Mas se assim não fosse, se não houvesse essa, mesmo que falsa, barreira, teríamos sequer prazer?
Se tudo fosse permitido, mas realmente permitido, se em vez de uma brecha tivéssemos, desde pequenos, uma enorme porta aberta para o mundo dos prazeres, saberíamos reconhecê-los?
Dar-lhe-iamos sequer qualquer valor? Ou deixariam de ter qualquer significado?

A verdade é que precisamos de algo que nos prenda para que possamos depois desfrutar da liberdade.Precisamos de sentir a injustiça, para que depois possamos sentir o que é a justiça.
Precisamos de sentir que algo não nos é permitido/concedido, para que depois surja o prazer.
É como se fosse uma questão de merecimento. Depois de sofrermos, tornamo-nos dignos de sentirmos prazer, e sermos, de certa forma, felizes.
Se não for nesta vida, que seja noutra. Ao menos preferimos acreditar nisso, pois facilita as coisas. No fim lá receberemos o nosso biscoito, por termos abanado a causa, rebolado e sentado à ordem.

E depois surgem os sonhadores natos.
Aqueles que sonham e imaginam. Aqueles que ainda acreditam que talvez haja uma pontinha de possibilidade de transformarmos uma abóbora numa carruagem de ouro, ou que no fim tudo acaba bem, ou que nós somos bons.
É em sonhos que encontram a sua felicidade, mas esquecem-se que os contos de fadas apenas são belos e possíveis nas páginas de um livro.
E no fim, nem tudo acaba bem. Podemos simplesmente conformarmo-nos e "o que não tem remédio remediado está".
E não, nós não somos bons. Somos podres, estamos contaminados. E já não fazemos sentido.
Mas uma maneira de atenuar a dor, é sonhar.
Com os sonhos podemos moldar a realidade, porque afinal de contas, o que é a realidade?
Não existe uma realidade. Existem várias. Cada um opta pela que menos lhe ferir os olhos.

E depois surgem os utópicos.
Aqueles que acreditam. Acima de tudo acreditam.
Um dia as coisas serão perfeitas, haverá justiça, igualdade, liberdade.
E esse mecanismo que ampara o mundo jamais trará dor ou mágoa novamente, a quem quer que seja.
E isso conforta-os. A perspectiva de um futuro melhor. E isso é o suficiente para que se aguentem, criando uma ilusão.
Mas haverá sempre um cadáver em putrefacção encravando esse mecanismo, pois para que tal funcionasse, seria necessário mudar a nossa essência e arrancar-nos o coração.

E depois surgem os pessimistas.
Aqueles que já desistiram, tal como eu.
Aqueles que não acreditam, nem em contos de fadas, nem em nós.
E é isso mesmo que nos dá prazer. Um prazer doloroso, mas que nos vai mantendo o coração a bater.
É que no fundo, no fundo, esperamos que algo prove que estamos errados.

Mas pensando bem, não há qualquer diferença entre nenhum de nós. Porque até os mais pessimistas já sonharam e acreditaram em fadas
Mas chegaram a uma dada altura em que já só possuíam algumas cartas para jogar com a vida e decidiram parar por ali. As expectativas, os sonhos e projectos falhados custam pedacinhos a mais na nossa alma.
Afinal de contas, quantos de nós se tornaram astronautas? Quantos de nós se tornaram princesas e Super-Homens?
A beleza na infância é a ingenuidade. Ainda aí somos capazes de acreditar, e um pequeno chocolate ou um gelado enchem-nos o dia de felicidade. Somos menos exigentes, pois ainda nos resta o mundo dos sonhos. Ainda nos resta um futuro inteiro pela frente.
Mas o tempo é cruel.
O tempo não pára e aquele tic-tac alucinante leva-nos com ele. Quando abrimos os olhos, afinal aqueles chocolates fizeram-nos borbulhas, e já passou tanto tempo que nem nos lembramos da fórmula mágica que tinhamos para simplificar tudo ou para, pelo menos, não complicar.
Em cada minuto somos esmagados pela ideia e sensação do tempo. E apenas existem dois meios para escapar a tal pesadelo, para esquecê-lo: o prazer e o trabalho. O prazer gasta-nos. O trabalho fortifica-nos. Escolhamos.
Quanto mais nos servimos de um, mais o outro nos inspira repugnância.

E talvez seja por nos esforçarmos tanto, talvez por complicarmos tanto, acabamos por afastar aquilo que mais procuramos: a felicidade.
É que uma coisa é nunca a ter encontrado; outra é perdê-la. E há quem prefira simplesmente não arriscar passar por tão dolorosa perda, e nunca a procure sequer.
Mas com tantas adversidades, tantas incertezas, o que apenas vale a pena na vida é podermos olhar para trás e recordarmos como sabiam bem aqueles gelados, saltar à macaca, contar estrelas, sentirmos um arrepio quando alguém nos toca ao de leve, sentir o estalar da areia por de baixo dos pés enrugados, sentir o vento na cara ou simplesmente sorrir.
O que vale a pena é, simplesmente, um dia pensarmos que valeu a pena ter vivido. Mesmo que um breve momento. Isso justifica uma inteira existência.
É que a vida... a vida é um fósforo que se extingue num âpice.
A vida é um tudo de pequenos nadas.

E são essas pequenas mortes que dão algum sentido ao incompreensível.
Essas pequenas mortes...
E assim vamos vivendo.

RR

domingo, abril 29, 2007

Amor, Sapatos e Zeus

"Então considerei que as botas apertadas são umas das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro". - Machado de Assis "Preciso de alguém sem o qual eu passe mal”. – Kid Abelha

A falta de amor é um par de botas apertadas. Por que mortificar os pés, e depender do prazer de desmortificá-los? É um prazer masoquista. Mais lógico seria usar sapatos confortáveis, ou então, não usá-los. Mas não: é bom que exista a dor, para que saibamos o que é prazer. Melhor não conhecer o amor do que passar uma vida na infelicidade, tentando encontrá-lo.

Segundo uma lenda grega, no início, os seres eram duplos e esféricos, e os sexos eram três: um constituído por duas metades masculinas; outro por duas metades femininas; e o terceiro, andrógino, metade masculino, metade feminino. Como ousassem desafiar os deuses, Zeus cortou-os para enfraquecê-los. Cada ser tornou-se então um ser distinto, e o amor recíproco origina-se na tentativa de restauração da unidade primitiva. O homem considera-se incompleto, tentando desesperadamente encontrar aquele que o faça passar de um estado de pobreza (espiritual) para um estado de riqueza.

O que eu queria dizer é que seria melhor que não existisse amor; porque a falta dele mortifica a alma. Zeus poderia ter feito seres completos: podemos imaginar um mundo primitivo no qual o amor não existisse: muito sofrimento seria poupado. A humanidade seria constituída por seres completos, e poderia dedicar-se a outras coisas que não a busca do amor, essa coisa passageira e inútil. Claro que são só hipóteses; quem é que abdicaria do amor tendo-o conhecido?

No mínimo, ele trouxe inspiração aos poetas. Na verdade, acho que a única utilidade do amor foi ter ajudado a humanidade a produzir arte. A amizade é um sentimento muito melhor que o amor; é mais irmão, mais fraterno; os amores vêm e vão ao sabor dos ventos. Mas a amizade não resolve o problema da sexualidade, outra necessidade humana cuja falta representa um tormento. O ideal seria não ter sexualidade nem amor, mas, conhecendo-os, é impossível ignorá-los. Por exemplo, durante a infância, a felicidade é plena. Ninguém precisa do amor homem-mulher. Não existe a falta eterna de alguma coisa. Mas quando se entra na adolescência, as duas esferas são magicamente separadas e precisamos de companhia.

O amor é maníaco-depressivo. Na presença dele tudo são flores. Na falta, tudo é um inferno. Deve existir um meio de equilibrar essas duas faces. Não quero precisar de alguém sem o qual eu "passe mal". Parece um vício. Na falta da pessoa amada, é como se existisse uma síndrome de abstinência. O amor destruiu, como a droga: antes, passava-se bem sem ele; fomos-lhe apresentados na adolescência e agora existe um vazio, que nada parece preencher. Mais uma dose, por favor.

Por fim, acabo isto que me atormentava à meses. Fecho o bloco, apago a luz... Ainda assim agradeço o dia em que o amor me foi apresentado. Vem-me à cabeça "Fomos à Lua mas não encontrámos a nossa verdadeira casa. Aqueles que lutam e sofrem por amor encontram-na…" Adormeço....

RR

Doutores e Engenheiros

Como simples e humilde cidadão que me considero, venho, por este meio, transmitir a minha opinião a todos aqueles que a desejem saber. Quem não se englobar neste pequeno (reconheço que sim) grupo, talvez seja melhor nem gastar movimentos pupilares a percorrer o meu texto. Não porque quero escrever para uma elite, de que tipo for, ou porque simplesmente ache que há pessoas que não devem ler os meus escritos. Nada disso, antes pelo contrário! Uma vez que eu não sou doutor, engenheiro, nem sequer senhor, as minhas palavras talvez não despertem tanto impacto como se, antes do meu nome, se encontrasse qualquer título académico.

Como o leitor já deve ter reparado, o tema que irei abordar é a polémica acerca das habilitações do nosso primeiro-ministro, José Sócrates. Sinceramente, acho que não há melhor assunto para debater do que este que nos clarifica quanto ao Pré-nome do líder do governo. Aliás, todos os problemas económicos, financeiros e sociais estão totalmente solucionados para podermos, agora sim, discutir de forma assertiva as habilitações de Sócrates!

Não me coloco em algum lado da barricada, tentando, desta forma, analisar a questão da forma mais distante possível. Tenho a minha própria opinião, como é óbvio, e irei transmiti-la ao longo deste texto, mas, primeiramente, tentarei analisar, de forma matemática, o caso.

É certo que esta situação alegadamente ilegal da obtenção do diploma por parte de José Sócrates é um problema que deve ser debatido em sede própria e que deve ser desvendado até ao último pormenor. Ao chegar a público, é absolutamente natural que as pessoas se comecem a interrogar acerca da credibilidade de alguém que está no poder e se comecem a interessar (será mesmo este o termo?) pela vida académica da pessoa em questão. É uma figura pública e, mesmo que não seja do seu agrado, está sujeita a ser criticada e falada em cafés, jardins, locais de trabalho, e em blogues (o novo suporte comunicacional que, quer queiram quer não, é e será, cada vez mais, o centro de todas as futuras tertúlias que já se iniciaram e que continuarão a existir).

Mas permitam-me que discorde do mediatismo de que este tema está a ser alvo. Deixemos o “caso judicial” para a justiça resolver e não nos precipitemos a apontar juízos de valor a quem quer que seja. Sócrates pode ter sido beneficiado, directa ou indirectamente, como até pode nem ter sido. Mas, segundo os documentos a que todos tivemos acesso (pelos meios de comunicação social), a confusão é enorme. Uns afirmam categoricamente que Sócrates foi favorecido, enquanto que outros, entre eles o próprio Primeiro-Ministro (não seria de esperar outra coisa), afirmam que a situação académica está completamente legalizada.

Questões judiciais à parte, o certo é que José Sócrates está a fazer um bom mandato, alicerçado em ideias sólidas e construtivas que permitem transportar o país para um elevado patamar socio-económico. Sou apartidário e não perfilho nenhum ideal que esteja inscrito em tábua bi-milenar que, mesmo sendo rasa, não me permite inscrever o meu verdadeiro pensamento. Neste preciso caso, entendo que temos um governo que está a cumprir as suas funções de forma coerente e rigorosamente bem. Mas, por agora, a minha opinião em relação à actuação do governo é irrelevante.

Sendo engenheiro, doutor, senhor ou excelentíssimo, José Sócrates não deixa de ser um bom (mau para alguns) Primeiro-Ministro. Num país em que os títulos são tão essenciais como as impressões digitais, todos nós nos pavoneamos pelas ruas como se fôssemos autênticos reis. Porém, muitos passeiam nus sem o saber. Basta viajar até Coimbra onde uma simples capa nos assegura o título de doutor! “Há coisas fantásticas, não há?”

Como disse inicialmente, no meu bilhete de identidade o meu primeiro nome é André, sem nenhum título antes. Por essa razão, afirmei que não saberia se estaria habilitado a ser lido por algumas pessoas. Aliás, penso que, se hoje me candidatasse a qualquer cargo público não obteria grande apoio. Não devido às minhas limitadas capacidades mas por me recusar a utilizar algum pré-nome que não fosse meu.

Ao contrário do que muitos dizem por aí, eu admito sem medo a minha ignorância em inúmeros assuntos. Não esquecendo, porém, que admitir a ignorância é o primeiro passo para atingir a sabedoria.

Como um homónimo do nosso primeiro-ministro disse, “só sei que nada sei”. E não consta que fosse engenheiro…

André Pereira

Orgulhosamente Avós

Durante semanas, chegava a casa cansado de mais um dia de trabalho, sentava-me ao computador, ligava a televisão e (as)saltava-me à vista a fotografia de António de Oliveira Salazar. “Déspota ou iluminado?” era a frase que acompanhava um dos retratos mais vistos e dados a ver pelos portugueses.

Hoje, continuo a minha rotina de trabalhador-estudante e estudante-trabalhador e não abdico das funções do meu polegar. A pequena caixa mágica continua a transmitir som e imagem ao meu quarto. Porém, a pergunta que me invadira há poucos dias continua sem resposta. Quer esta sobre Salazar, quer tantas outras sobre os restantes nove finalistas do concurso da RTP “Grandes Portugueses”.

A votação está concluída e o vencedor é Salazar, com 41% dos votos. Sinceramente, o resultado não me espanta em nada. E talvez peque por não ter atingido a maioria absoluta. Penso que esta escolha não reflecte o que o povo quer ou deseja (regresso de Salazar). Se, por um lado, votaram “apenas” cerca de 160 mil pessoas, por outro, quem votou não pertence (um mero palpite) às novas gerações. Sentados num banco de jardim, os mais velhos balançam entre as migalhas dos pombos e a organização meticulosa das suas peças de dominó. Outras migalhas enchem os bolsos vazios reflectidos nas palavras saudosas de um regresso ao passado “No tempo do Salazar é que era bom”. São estas palavras que saem das bocas enrugadas dos avós que são dirigidas aos mais pequenos comandados por ipods e playstations.

Mas o que verdadeiramente me espanta é o elevado grau de inteligência que os criadores deste programa tiveram para o transformar num concurso. De facto, nada melhor que pegar no nosso país (Portugal, Inglaterra, Itália, ou outro), cortar ao meio, espremer bem, abanar um bocadinho e verter para um copo para ser bebido como um simples sumo de laranja. Realmente, não se poderia pedir muito mais de um público que já há muito tempo que anda habituado a outros frutos e flores… Com ou sem açúcar, os olhos colados na televisão são cada vez mais e a massa cinzenta cada vez menos.

Dar a conhecer ao público as obras, feitos e conquistas dos portugueses que, de certa forma, foram importantes para o país é, sem dúvida, uma iniciativa a aplaudir. Decerto que grande parte dos portugueses nunca sequer teria ouvido falar em muitos dos finalistas do concurso. Ou, se o ouviram, entrou e saiu da cabeça à velocidade da luz. E é mesmo isso que falta a muitos portugueses, luz. Num mundo cada vez mais iluminado pelas novas tecnologias e pela imprescindível rapidez de pensamento e acção, o verdadeiro pensar e o conhecer tendem a ser esquecidos por aqueles que não têm os coletes de salvamento.

Escolher entre Salazar e Álvaro Cunhal, Fernando Pessoa e Camões, D. Afonso Henriques e D. João II é uma afronta à História de qualquer país, particularmente a um dos países mais antigos do Mundo como é o nosso. Conceder determinados atributos a cada “concorrente” (sim, Vasco da Gama e Aristides de Sousa Mendes são concorrentes!) é um acto estupidamente leviano para definir as suas personalidades. Como num simples jogo de computador, coloco os jogadores nas suas posições conforme as suas qualidades (Fernando Pessoa tem 8,6 de génio, talvez o coloque a nº10; o Marquês de Pombal fica atrás para organizar a defesa; já o Salazar tem 8,7 de liderança, será ele a enveredar a braçadeira de capitão). E é neste barco de frágeis tábuas de madeira que abandonamos a costa rumo à “evolução” com o objectivo maior de dar “novos mundos ao mundo”.

Qualquer um dos portugueses, conhecido ou mero anónimo teve, tem e continuará a ter um papel fulcral na História do nosso país. Como é óbvio, não discordo da existência de personalidades que, por tudo o que fizeram e pela sua visibilidade, foram transformadas em verdadeiros ícones mediáticos. Mas mesmo dentro desses, cada um foi dotado de defeitos e virtudes, vitórias e derrotas. É, portanto, na minha humilde opinião, coroar um único como o Grande Português, uma impossibilidade histórica e vertiginosamente perigosa para todo o público deste programa, que somos todos nós.

Talvez as crianças, dentro de uns anos, rejeitem ler “Os Lusíadas” (já não rejeitam?) pois foi criado por um simples homem que ficou num modesto quinto lugar… Ou, por outro lado, decidam estudar economia para serem Ministros das Finanças… Visto desse prisma, talvez nem fosse má ideia. Mas isso já são contas de outro rosário. Contas de somar, subtrair, multiplicar, dividir… Dividir tal como aconteceu em 1494, dum lado Portugal, do outro Castela. Hoje, o Tratado de Tordesilhas adaptou-se à mentalidade portuguesa e cada vez mais o fosso entre ambos os blocos é maior. A informação, é certo, aumentou drasticamente nos últimos anos e o acesso a ela também. Contudo, o conhecimento está tão longe para muitos como estava a Índia para o Vasco da Gama. Muitos de nós continuam a ser tristes empregados de escritório, que falam para si mesmos através da invenção. Outros vivem euforicamente felizes, cantando ao mundo a sua envernizada sabedoria.

Precisamos, talvez, de um Alberto Caeiro para guardar toda esta homogeneidade rebânica que pasta lentamente o que lhe vem à boca.

A cadeira caiu mas, para muitos, ergueu-se orgulhosamente a voz de Salazar.

André Pereira
O Despertar

Aborto Pe(r)dido

Vergonha! É a palavra com que decido iniciar este texto. Posso aplicá-la ao facto de andarmos a discutir a morte em vez da vida, posso aplicá-la ao facto de andarmos a escolher entre Salazar e Cunhal, posso aplicá-la ao acto demissionário do Governo em convocar um Referendo que deveria ser resolvido no Parlamento. Colocar nas mãos de pessoas tão inteligentes, como é a esmagadora maioria do povo lusitano, uma questão tão importante como a interrupção voluntária da gravidez é simultaneamente um acto de coragem e cobardia totais.

Numa altura em que se fala de aborto tal como se fala de futebol, resolvi equipar-me a rigor e escrever algumas linhas sobre o tema.

Uma falta mal assinalada pelo árbitro não teria tanto efeito como este que ultrapassa idades, classes e religiões. Uns são a favor, outros contra, outros vêem-se espelhados em rábulas do Gato Fedorento… Mas, o que está em questão no referendo do dia 11 de Fevereiro? Somos contra o aborto? Claro que somos, todos! Sem sombra de dúvida, a maioria da população prefere evitar um aborto a cometê-lo. Mas a pergunta não se baseia na nossa opinião sobre o aborto. A frase que estará nos boletins de voto no próximo domingo é a seguinte: "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?". Por aquilo que consigo deduzir, não sou questionado se concordo com o aborto ou com a sua legalização, como muitos andam a dizer em praça pública.

Há vários pontos que necessitam de ser esclarecidos nesta matéria. As palavras-chave desta pergunta são: “despenalização”, “voluntária”, “primeiras 10 semanas” e “estabelecimento de saúde legalmente autorizado”. Muitos têm sido aqueles que confundem estas palavras com “liberalização”, “obrigatória”, “nas primeiras semanas de vida”, “estabelecimento de saúde sem condições”.

Na minha modesta opinião e, tendo em conta que a graduação dos meus óculos é a correcta, as palavras não são bem aquelas, roçando até os próprios antónimos.

O aborto voluntário sempre se praticou e sempre se continuará a praticar. E ninguém fica impune a isso, como é óbvio. O que está em causa é, se a mulher que pratica este acto voluntário até às 10 semanas, deva ser penalizada ou não (pena que vai até três anos de prisão, de acordo com a lei em vigor). Do meu ponto de vista, a resposta é não! Pode ser moralmente condenável mas quem, para além da mulher, tem o poder sobre o seu corpo? Quem, para além da mulher, sofre com as consequências físicas e psicológicas de um aborto mal feito e fora de tempo?

Muitas vozes se levantam do seu sepulcro de riqueza, dizendo que é um crime pecaminoso matar uma vida! Mas, calma… Então Jesus não teve vida inicial. Não houve fecundação por parte do espermatozóide de José no óvulo de Maria (até porque na época não se cometia esse tipo de pecado!). Por amor do vosso senhor! Se a vida começa a partir do momento em que há fecundação, então a pílula do dia seguinte (curiosamente também criticada pela Igreja Católica) também deve ser considerada uma forma de aborto. Se calhar, talvez seja melhor utilizar preservativo, para evitar abortar e arriscar qualquer contágio infeccioso (sei lá, talvez essas pequenas doenças que para aí andam… SIDA, Tuberculose, Hepatite…). Mas o Senhor do Vaticano, perdão, o Senhor do Céu não permite tal afronta à vida humana. Talvez seja melhor, antes de pensar em fecundação, pensar em evitar a penetração. A não ser que seja uma penetração em que não se corra o risco de engravidar… Se pensarmos um bocadinho, quem é que não pode engravidar? Pois, o leitor adivinhou, mas não acredito que senhores da Igreja cometam acto tão bárbaro. Nem há relatos que possam provar isso… Nem membros da Igreja presos…

Enfim, que o tal deus me perdoe (se é que existe mesmo – porque se existisse acho que já cá tinha vindo abaixo crucificar, ele próprio, uns poucos).

As minhas palavras estão-se a desviar, embora que de forma compreensível, do tema em debate. Esta junção de letras toma este rumo porque a esmagadora maioria dos representantes da Igreja Católica em Portugal defende, de forma imoral, o voto no “Não”. Que fique esclarecido que cada pessoa tem o seu direito de escolha, o que eu respeito e defendo! Como Voltaire um dia disse, “Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo”. Contudo, a forma como o voto negativo é “publicitado” pode ou não ser condenável. E, na minha opinião, grande parte dos argumentos dos defensores do “não” é completamente descabida.

“Se a lei for aprovada, uma mulher que aborte à 10ª semana e um dia, será na mesma penalizada”, é um dos argumentos. Claro que será penalizada. O limite é até à 10ª semana, será que a mulher não tem 70 dias em que possa pensar e ponderar o seu futuro e aquilo que deseja do seu corpo??? Tem que haver limites! “Se tivesse chegado um minuto mais cedo, não perderia o autocarro”. É óbvio, da próxima devo planear melhor a minha vida, de modo a não chegar atrasado. É uma comparação um tanto ou quanto desproporcional mas é idêntica! O nosso país tem viajado pelos “ses” ao longo dos anos… “Se D. Sebastião vier…”. “Se a Economia melhorar”, “Se tivéssemos ganho o jogo”, “Se…”, “Se…”, “Se…”… Enfim, tomemos outro rumo e apoderemo-nos dos pontos finais e dos pontos de exclamação! Abaixo as reticências e os falsos pontos de interrogação!

Segundo os dados da Federação Internacional de Planeamento Familiar, a interrupção voluntária da gravidez é considerada crime na Grã-Bretanha, Chipre, Espanha e Polónia (tal como em Portugal), sendo admitidas poucas excepções. Mas entre os 27 da União Europeia só Malta é totalmente contra o aborto, seja em que circunstância for. E a mulher que o praticar incorre numa pena de prisão entre 18 meses e três anos. Ou seja, estamos entre os países mais desenvolvidos da Europa!

Os defensores do “não”, que eu respeito profundamente, argumentam, ainda, que uma aprovação popular levará a uma liberalização do aborto, aumentando drasticamente as interrupções voluntárias de gravidez. Outro erro! O número de abortos não aumentará, até porque tenho a certeza absoluta, mesmo pertencendo ao género oposto, que nenhuma mulher aborte porque lhe dá prazer (“Não utilizámos preservativo, por isso vou abortar”)! Isso é desrespeitar a mulher como pessoa, como ser humano! Desrespeito esse que tem sido preconizado de forma sublime por aquela grande e nobre instituição que é a Igreja Católica.

Agora, o registo do número de abortos aumentará significativamente! Sem qualquer sombra de dúvida! Isto porque passarão a ser legalizados e efectuados em “estabelecimentos de saúde legalmente autorizados”. E não sei onde estará o mal, antes pelo contrário. Combater-se-á o aborto clandestino e proteger-se-á a integridade física e psicológica da mulher.

Os defensores do “sim”, ao contrário dos defensores do “não”, não estabelecem nenhuma obrigatoriedade! Os defensores do “não” afirmam que a mulher não pode e não deve abortar! Os defensores do “sim”, nos quais eu me insiro, defendem que a mulher deve escolher de forma livre, tendo em conta, como é óbvio, todos os pontos de vista e todas as opiniões. Aliás, é uma decisão que não é seguramente fácil, ao contrário do que os partidários do “não” tendem fazer parecer. Votar “sim” não significa obrigar as mulheres a abortar! Este é outro erro frequente que os defensores do “não” pretendem transmitir de forma incorrecta à população.

Nestas últimas semanas, tenho visto espalhados pelas ruas inúmeros cartazes a apelar ao voto no “sim” e no “não”. Não consigo compreender é a mente mesquinha daqueles que desenham pequenas crianças inocentes em amplos cartazes: “Tenho 10 semanas, não me mates!” Por favor… Ou então (e lá voltamos nós ao principal problema, na minha modesta opinião), as mais de 850 cartas que foram colocadas nas mochilas das crianças, apelando ao voto contra o aborto. Isto sucedeu no Centro Paroquial de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal. Adivinhem quem foram os autores.

Como um grande amigo meu me disse há uns dias, “Se o “não” vencer, será, seguramente, o maior crime do século em Portugal”. E, apesar de ainda nos faltarem umas dezenas de anos para completarmos esta era, estou completamente de acordo.

Por mera curiosidade, no dia do Referendo – 11 Fevereiro – celebra-se a Independência do Estado do Vaticano (1929), segundo os tratados de Latrão. Espero que este aniversário não seja angariador de muitos presentes. Para mim, apenas desejo que “me agradem, por favor”. Não fosse esse o título do primeiro disco dos Beatles gravado, coincidentemente, no dia 11 de Fevereiro de 1963 – “Please Please Me”.

André Pereira
O Despertar

A Velha Coca-Cola e o Novo Vêgê

Como telespectador atento que sou, tenho mantido uma vigilância permanente sobre o meio audiovisual e a sua repercussão no nosso mundo actual. A Publicidade é um dos conteúdos que me fascina e, ao contrário de grande parte das pessoas, muitos são os minutos que despendo com os olhos colados aos mais variados anúncios.

De há uns tempos para cá, dois anúncios saltaram-me à vista mas, essencialmente, ficaram no meu pensamento mais tempo do que o normal. A minha primeira reacção foi de surpresa; contudo, após alguns visionamentos mais cuidadosos, notei em mim algum receio, especialmente num deles. Fiquei surpreendido porque, apesar de seguirem as regras publicitárias, estes dois anúncios afastam-se, de certa maneira, da onda em que até então todos navegavam, criando a sua própria estrutura.

O outro sentimento que enumerei é o receio, uma vez que estes anúncios (com especial atenção para um deles) aproveitam um momento de “distracção humana” para entrar no inconsciente das pessoas.

Falo dos anúncios da Coca-Cola e do óleo Vêgê. No primeiro, a personagem principal é um senhor idoso, de fato-de-treino, praticando diversas actividades físicas demonstrando, assim, a sua excelente forma. O senhor diz que sempre bebeu Coca-Cola e que, apesar de se dizer que o refrigerante é utilizado para “limpar as engrenagens” e “não estar provado que faça bem”, ele continua a beber porque fá-lo sentir feliz. E, “se a felicidade aumenta a esperança de vida, continuarei a beber”.

Por sua vez, o segundo anúncio centra-se numa rapariga na flor da idade. Esta, apresenta, de forma bastante natural, o produto, desprezando, por completo, o ambiente envolvente - “Não precisamos de uma bonita cozinha, com um cozinheiro famoso, umas crianças para dar um ar querido e uma super-modelo a apresentar”.

Contudo, ao dizer tudo isto, está a captar a atenção do público para esse mesmo aspecto, o espaço envolvente que, nesta película, se baseia numa parede branca onde a protagonista cria o seu próprio meio. Esta simplicidade na promoção do produto leva a uma conclusão lógica, referida pela actriz: “Desculpem, vamos continuar com anúncios maus mas com um óleo muito bom”.

Ora, estes dois anúncios causaram em mim surpresa não só pela sua originalidade mas também pela “mudança de rumo”, como já havia referido. Contudo, é o anúncio da Coca-Cola que provoca em mim o tal sentimento de receio. Isto porque, se analisarmos bem o anúncio, o texto não confirma nem desmente os malefícios da Coca-Cola, colocando a sua tónica no elemento primordial, a Felicidade!

Por entre imagens raras nos dias que hoje correm (um homem de 84 anos em excelente forma), a Coca-Cola como que “injecta” lentamente no nosso inconsciente a frase “a Coca-Cola até pode fazer mal, mas dá felicidade”. E é aqui que eu sinto medo. Isto porque, se até então as pessoas já suspeitavam da qualidade deste refrigerante, a partir de agora sabem, por fonte segura, que provavelmente faz mal.

A máxima que este anúncio estabelece e pretende moldar na mente humana é a seguinte: “Façamos o que nos apetece! Até podemos consumir produtos que nos irão prejudicar mas o importante é estarmos felizes."

Desde sempre que a Coca-Cola nos tem habituado a anúncios de elevada qualidade, mas não nos esqueçamos que foram estes senhores que criaram o Pai Natal. Esperemos que não criem, também, “esta” felicidade.

Este tipo de anúncio é muito difícil de combater pois a própria marca diz “toda a verdade”, acrescentando no entanto um novo elemento - “O nosso produto faz mal, mas dá felicidade”, ou “Os nossos anúncios são maus mas o óleo é bom”.

As pessoas continuarão a beber Coca-Cola, eu próprio continuarei a fazer parte desse grupo. As vendas do óleo Vêgê irão, decerto, aumentar como consequência deste anúncio. Mas é importante saber ver os anúncios, e não apenas olhar…

André Pereira
O Despertar

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

São Valentim

Ó Paredes, mestre fadista, da guitarra artista
Hoje sonhei com a tua arte, um dedilhar possante
Uma vida musical, um triunfar constante.

Quis ser maior, quis ser melhor, quis ser perfeito
Saudei mundos, abracei a vida, chorei, satisfeito

Deitei, descansei, sonhei
Acordei, sorri, vivi.
Nada encontrei...
E tu mesmo ali,São Valentim..

Não procurava o sucesso, o excesso
A fama, o dinheiro ou a glória.

Este sonho que sonhei, neste dia de alegria
era meu e tão teu,
era forte de paixão, de harmonia,
enfim, de Romeu?

Procurava-te, a TI

Chamei-te de amor, e com um olhar, deste o coração
Corei, cresci, rebentei.
Todo o amor do mundo por aí,
e tu com o meu... na tua mão

Corri por vales e montes, feliz
Pois onde tu estiveres eu estarei,
Guardada estás no meu coração
Plantada... de raíz

domingo, fevereiro 04, 2007

Fala-me de amor

Vi-te infeliz, cara tapada e os soluços de quem perdeu algo.
Perguntei-te se podia ajudar.

Perguntaste-me se sabia o que era o amor.
Tentei responder pensando nos melhores momentos que tinha passado, nas pessoas que me tinham dado boas recordações, nos locais mais lindos que tinha visitado...
Sorriste pela primeira vez, e eu senti-me feliz.

Fala-me de amor, pedi-te eu, com os olhos fixos no vazio, fugindo dos teus.
Esperava ouvir-te falar do teu mundo, dos teus sonhos e ilusões. Esperava conhecer-te melhor e partilhar das tuas mágoas e alegrias.

Falaste-me de amor. O amor que sentias, a pessoa desejada, a vida presente, a vida passada. Aí vi que o que sentia não era nada mais que um punhado de areia numa vida de pressas e segredos, intercalada com murmúrios e lamentos.
Senti vontade de chorar, mas aguentei, senti pressa de viver, de corrigir tudo o que tinha feito, de mandar aquelas dezenas de cartas que nunca enviei...
Levantaste-te. Levaste contigo a alegria e o amor. Deixaste-me a saudade e o lamento.

Hoje, olho para o passado, e recordo aquela rapariga, com aquele perfume ligeiramente adocicado, a voz melódica e firme, aqueles cabelos ondulantes.
Espero agora eu, sentado nesta pedra, qual filósofo, à espera que um alguém me venha render. Tirar desta solidão que me assola quando paro. Tirar o peso da imagem de quem sempre amei mas nunca lhe disse.
Estou velho e esta falta de amor, leva-me as poucas forças que me restam.
Antes assim, preferi morrer de corpo, que sofrer e morrer de coração.

Tomás
Imagem: Direitos Reservados